Cultura e Patrimônio: Uma Imersão Histórica por São Roque com o Grupo Serranias
Em um encontro que resultou em parceria e amizade, o Núcleo NEGRAS encontrou o Projeto Serranias em uma dessas andanças da vida. Ao participar de um evento piloto do grupo, o Núcleo criou um laço forte, compartilhando o mesmo apreço por história, patrimônio e cultura. A partir disso, gerou-se o interesse de ambas as partes em partilhar informações e saberes ancestrais; assim nasceu há um ano a união entre ambos, que já perdura por belas estações.
Os orientadores e orientandos do NEGRAS tiveram um final de semana maravilhoso em um tour por São Roque. O estudo de meio, com vivências pedagógicas dirigido pelos guias Carol Perske e Júlio Schneider, fez o grupo mergulhar na história e vivenciar, de perto, pontos históricos dessa cidade turística. Com um olhar sensível para o que se vê, mas por vezes não se sente no dia a dia, o Serranias trouxe à tona a forte narrativa de um povo — antes apagada pelo tempo — que se tornou resistência e sobrevive mesmo após sua partida, combatendo a discriminação e a intolerância com arte, fé, arquitetura e conexão com a natureza.
A experiência teve início na manhã de um sábado ensolarado, na Igreja de São Benedito, onde foi apresentada desde a arquitetura de taipa e pilão até a memória de tantos anos gravada nas paredes, teto e chão daquele local de fé. A igreja passou a ser construída em 1855, a partir da irmandade fundada pelo Padre José de Moraes; o objetivo era erguer uma capela dedicada a pessoas pretas que, por imposição da época, não eram permitidos na igreja matriz. Dessa forma, no século XIX, as paredes foram colocadas de pé com as marcas de um povo que também construiu o município, mas não teve seus nomes reconhecidos. O Projeto Serranias trouxe luz a uma história que, até os dias de hoje, se esforça para se manter viva e que não se apaga por estar sob um misto de resistência e devoção. Ali, a vivência contou com atividades interativas, música, o sabor de um bolo de café, apresentações artísticas e uma imersão profunda, como uma volta no tempo para entender os dias atuais.
Partiram então para um almoço coletivo em um pequeno restaurante, regado de sabor e simplicidade, com o grupo de estudantes e professores cheios de expectativas. A próxima parada foi o Sítio Santo Antônio, um local repleto de história, afastado do centro urbano. O grupo vivenciou um pouco mais sobre a proposta levantada pelo Projeto Serranias, mergulhando ainda mais na trajetória do povo preto e em seu marco que resiste a tentativas de apagamento.
O sítio bandeirista possui uma casa-grande e uma capela em arquitetura colonial brasileira, sendo hoje tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Construída em 1640 por Fernão Paes de Barros, a propriedade resistiu ao tempo e a diversos donos antes de pertencer ao escritor Mário de Andrade, que foi o comprador e doador da propriedade ao Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ainda em vida. O poeta viu na simplicidade do local um patrimônio que, com suas palavras, descreveu como algo que precisava ser preservado por motivos históricos.
A atuação do Serranias levou o grupo a observar o local com uma visão sensível, provocando reflexões sobre as vidas que ali estiveram — vidas roubadas em cultura, tempo e memória; pessoas escravizadas que foram privadas de sua liberdade e de seus direitos humanos. O local foi explorado pelo Núcleo, que mapeou pedaços existentes e o que, consumido pela ruína e por antigas reformas, não existe mais. O dia terminou com reflexões e flores em um memorial emocionante às vidas escravizadas ali perdidas pela negligência humana e pela falsa ideia de divisão por cor.
No domingo pela manhã, o encontro seguiu firme no Morro do Saboó. Antes da subida, o grupo foi imerso em leituras e dinâmicas. A caminhada seguiu árdua e reflexiva, construindo uma resistência aos poucos, juntando pedaços da história e descobrindo partes novas guardadas em rochas e terra. Naquele topo de morro, sentiu-se o espaço e vivenciaram-se relatos de um pico que outrora serviu de refúgio para pessoas pretas, reconstruindo a ideia do que poderia ter acontecido ali através da junção de fatos e imaginação histórica.
O final de semana se encerrou em uma confraternização do grupo, finalizando com reflexões sobre os temas abordados, troca de saberes e atividades marcantes. Em suas notas e considerações finais, o Núcleo NEGRAS expressa seu profundo agradecimento pela imersão de um final de semana repleto de vivências e experiências compartilhadas, demonstrando gratidão e carinho pelos parceiros do Projeto Serranias.
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